Um anjo chamado “Verdadeiro”

Anel de artesanato

Ainda não havia completado nem ao menos uma semana que tudo tinha acontecido, seus sentimentos continuavam confusos, pendentes de respostas.

Acordara como todos os outros dias, ansiosa e angustiada. Tinha a frágil esperança que não fosse mais um dia em vão, o mundo parecia estar uma bagunça, nada parecia encaixar ou fazer sentido.

O dia fora estressante e não havia nada mais encantador do que a ideia de chegar em casa, trancar-se no quarto e se deixar dormir, a maneira mais fácil de esquecer a dor.

Na rua, mais uma vez, não conseguira segurar as emoções, tudo que queria era ir pra qualquer lugar que pudesse chorar sem ter que se explicar a ninguém, mas seus olhos não a obedeceram e derramaram-se ali mesmo.

Dentro do metro, procurando se acalmar evitou pegar os primeiros vagões, deixando um ou dois trens passarem antes de decidir embarcar.

“Não fica triste. Você é uma garota linda.”

Olhou para o lado e viu um rapaz, que lembrava certamente um hippie, daqueles que vendem bijuterias artesanais.

Ela apenas sorriu, ainda que um sorriso triste. Ouvir aquilo só a fez querer chorar ainda mais.

Ele repetiu a frase e parou ao seu lado. Encostou a bolsa e o mostruário de seu trabalho na parede, pegou alguma coisa parecida com arame e começou a manuseá-lo com um alicate artesanal.

“Isso aqui é pra te ver sorrir. Você é linda e tão cheia de vida, não pode ficar triste assim.”

“São coisas que acontecem com todo mundo, não é?”

Ela balbuciou entre uma lágrima e um sorriso. Seja como for, ele tinha conseguido trazer, quase de imediato, a paz e a calma que lhe faltou durante aqueles dias. Mesmo sendo um estranho, sentiu o afeto que precisava.

A tal poesia que a vida oferece mesmo nos momentos mais tristes veio de encontro a ela. Veio de um estranho. Parecia uma cena que só se veria em um filme que emociona, mas não dizem que a arte imita a vida?

“Qual é o seu nome?”

Perguntou ele colocando o anel que acabara de fazer em um dos seus dedos.

Ela respondeu, sorrindo mas também chorando.

“O meu é Verdadeiro.”

Disse ele antes de beijar sua mão.

“A vida é linda, cheia de graças e alegrias, não vale a pena perder nosso tempo ficando triste.”

“Você fez meu dia mais feliz com o seu presente. Obrigada.”

É isso que eu quero. Seja o que for, a vida é muito maior do que isso que te fez mal hoje. Acredite! Fica bem, ta?

Ela sorriu de novo entre lágrimas, e se despediu sem entender direito tudo que acontecera ali. Mas sabia que tinha sido algo especial.

Aquele rapaz, com um nome diferente, dreads no cabelo, nariz furado e bermuda desbotada fora o único que se importou com a dor de uma desconhecida. Com a sua dor.
O único, que sem olhá-la com olhos de curiosidade, apenas de compaixão, pronunciara palavras de conforto e amor.

Com o coração oscilando entre a tristeza e a gratidão, entrou no trem e sentiu-se mais calma, ela sabia que aquele dia, aquele exato momento, transformaria alguma coisa dentro dela.

Durante dias ela passou por ali com o olhar curioso, mas sem nem ao menos um sinal daquele rapaz novamente, poderia ser alguém que estava só de passagem, mas ela preferiu acreditar que fosse um anjo para cuidar da sua dor.

O anel, ela guarda até hoje, pra sempre lembrar que mesmo em momentos tristes, há aquilo que vale muito mais a pena guardar dentro das lembranças.

 

(Obs.: Esse conto foi baseado, sem tirar ou acrescentar, em uma história vivida por essa que vos fala, e o anel, é esse aí da foto. Achei um bom conto de final de ano, pra sempre lembrarmos que vale muito a pena acreditar nas pessoas, que apesar de tudo que vemos no mundo, o amor, e os enviados de Deus estão sempre espalhados por aí, propagando o bem.)

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