Observando o mundo

Céu azul e laranja - amanhecendo

Às vezes pegava minha mãe parada por longos minutos, olhando pela janela o ir e vir do dia, e perguntava: “O que você tá fazendo aí, mãe?”, ela respondia: “Observando o mundo”. Aí, eu me juntava a ela e ficávamos ali, algumas vezes em silêncio, só olhando a vida, alheias ao tempo, outras papeando, filosofando sobre ela, sem nos dar conta que sempre se tratava dos pequenos detalhes.

Ontem a noite me peguei assim, observando o mundo.

A noite estava quente, tumultuada por mosquitos de luz, da janela do quarto, via o mundo lá fora, pulsante. Os prédios cheios de pontos brilhantes, as luzes de Natal colorindo o breu da noite, nos fazendo lembrar que já estamos perto do fim, aguardando um novo começo. Pessoas atravessando a rua, buzinas ao fundo, carros indo e vindo, semáforos imitando a vida: o vermelho, como os obstáculos para nos parar, o verde para nos libertar.

Pára, aguarda, com muita paciência, observa, reflete, aprenda a ceder a vez, alegra-se e volta a caminhar.

Como um legado vindo do teatro, aprendi a observar cada detalhe, com toda a vida que nele vem junto. Cada janela, uma história. Cada história, uma alma. Cada alma, um avalanche de sentimentos.

Quantas chegadas e partidas poderiam estar acontecendo naquele momento? Quantos reencontros? Quantas pessoas estariam fazendo amor ou preparando o jantar? Quantas pessoas precisavam, naquele mesmo minuto, tomar uma decisão pra vida toda?

Pessoas com pressa, pessoas rindo, pessoas com lágrimas no olhar. Pessoas procurando entender, outras deixando pra trás o que não serve mais. Crianças nascendo, pedidos de casamento, festas surpresas, ou um simples aconchego de um abraço sentados no sofá.

Uma ducha revigorante, aquele livro bom, um suco gelado, aquela brisa batendo como quem não quer nada, só pra estar dentro das casas de cada um de nós.

Cachorros latindo, felinos pulando o muro, pessoas aprendendo nas salas de aula, outras com a vivência, portas de lojas fechando, pessoas dormindo no ônibus, a música favorita no fone de ouvido.

Passeios no parque, caminhadas para a saúde, maratonas para o esportista, dengo no filho que caiu e cortou o joelho, uma moeda ao necessitado. Um pulo no mercado antes de ir pra casa, outros na farmácia, ainda faltam dois ônibus antes de chegar, a novela na tv, as flores no jardim, visitas tão aguardadas.

Mais do que o frescor da noite, durante aqueles dez minutos na janela, senti um sorriso torto crescer na alma e no rosto como se dissesse: “É, é mesmo bom viver!”

E o mundo lá fora vai vibrando, como um reflexo de todos nós, acontecendo junto com as dores e delícias de existir.

 

(P.S. Por ter vivido o momento tão intensamente nem me passou pela cabeça tirar uma foto, e por falta de uma, vai uma do amanhecer mesmo)

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