O melhor carnaval de uma vida

Um conto de Carnaval

As ruas abarrotadas de gente, serpentinas e confetes pelo chão, máscaras de todas as formas e cores, os corpos suados pelo sol escaldante fazendo sombras no asfalto, o clima de alegria e euforia, tudo isso, era o que traduzia o país durante aqueles dias.

Os blocos desde cedo reuniam multidões e a cada cruzamento mais e mais gente se aglomerava procurando seu lugar na folia.

Passava das onze horas da manhã e aquela moça sentada em uma mesa na calçada, desses botecos qualquer de esquina, tomando um café, pareceu a ele – sem subestimar o carnaval, porque nele é possível ver muita coisa – a coisa mais inusitada que vira até ali em meio a folia.

Quem toma café em um calor de 40º graus em plena folia de carnaval? Ela tomava.

Aquela moça com seu cachorro aos pés, estava sozinha. Mas não sozinha como se fosse solitária. E sim como alguém que sabe aproveitar a própria companhia.

Ela sorria enquanto olhava o bloco passar e levava a xícara à boca vez ou outra. E esse sorriso bastou pra entender que a folia parecia estar dentro dela, não precisava pular nem cantar pra isso.

O tipo de mulher que talvez nem saiba o impacto que causa, esse foi o pensamento dele.

Os cabelos castanhos da moça com o brilho do sol mais pareciam ruivos e eram envolvidos em um coque desengonçado que combinava com o calor do dia mas destoava da bebida em suas mãos. Ele ainda não entendia porque não uma cerveja gelada.

Ele quis prosseguir com o bloco, amigos a sua frente pulavam e cantavam mas ele estava envolvido demais, querendo desvendar aquela moça. O tipo de atração fatal mas com o charme da casualidade. Ela não estava ali para impressionar ninguém, muito menos para se jogar no frenesi da multidão. E isso foi o que mais o intrigou.

Sem pensar duas vezes, deu dois tapinhas nas costas do amigo como quem diz: Vou ali e já volto.

Ele não conseguia lembrar qual foi a primeira palavra que dirigiu a ela. Pode ter sido algo como: Quem toma café nesse calor? ou ainda: Sozinha em pleno carnaval. Só sabia que tinha sido algo bem idiota mas que serviu.

A moça soltou aquele mesmo sorriso, sincero, seguro e confortável, mesmo sabendo que era um desconhecido ali.

Ele ainda hoje não entende como nem porque, mas bastou algumas poucas palavras pra discorrem uma conversa honesta e sem firulas, não estavam tentando impressionar e até esqueceram que atrás deles passavam foliões ansiando por música e muita festa.

Ele já não precisava disso. Os amigos já deviam estar longe e isso não importava mais.

Juntos, e com Blade, um husky siberiano imponente, atravessaram o formigueiro de corpos até a extremidade do mar.

As horas não se fizeram perceber e ao longo do dia, eles foram descobrindo que ela é fim de tarde, por do sol com o silencio quebrado só pelas ondas do mar e ele é folia de carnaval, futebol na areia e madrugada.

Ela é café, vinho, chocolate quente e suco natural, ele é cerveja gelada, caipirinha e refrigerante.

Ela é jantar a meia luz, música na vitrola, livros na estante e filmes de Almodovar, ele é fast food, música alta, video game e filmes do Jack Chan.

Ela é luz do sol no interior da casa, plantas na sacada, fotos polaroids e a leveza de uma manhã de domingo, ele é ventania que bagunça, pés de lama no tapete e fotos desfocadas em uma noite de sábado com os amigos.

Não houve beijos, nem pegação de carnaval. Não houve conversas ao pé do ouvido nem palavras picantes.

Houve apenas duas pessoas deixando que a transparência do ser fosse a fantasia daquele carnaval.

Foi em uma tarde vestida de verdades que ele entendeu que nela morava tudo aquilo que ele nem sabia que queria conhecer, e a única coisa que conseguiu pensar é que esse pode ter sido o melhor carnaval da sua vida.

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